Parada LGBT+ celebra 30 anos na Paulista com grito de resistência política e alerta sobre retrocessos

A Avenida Paulista amanheceu neste domingo (7) tomada pelas cores da bandeira do arco-íris. A 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, considerada a maior do mundo, reuniu uma multidão que, apesar de ligeiramente menor em estrutura, fez questão de aumentar o volume da mensagem: “A rua convoca, a urna confirma” .

Com 14 trios elétricos (quatro a menos que no ano passado) e uma redução drástica de investimento privado, o evento de 2026 teve gosto de resistência. De acordo com os organizadores, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de SP (APOLGBT-SP), houve uma perda de aproximadamente 60% dos patrocinadores em relação a anos anteriores .

“Infelizmente, as pautas ligadas à diversidade e à inclusão acabaram sofrendo ataques coordenados por diversos setores conservadores. Muitas empresas recuaram por pressão ideológica”, afirmou Nelson Matias Pereira, presidente da APOLGBT-SP, criticando a retirada de grandes marcas como Burger King, Mercado Livre e Vivo .

Apesar das dificuldades financeiras – que contaram com a solidariedade de artistas como Pepita, Melody e Jup do Bairro, que abriram mão do cachê – o evento não perdeu o fôlego .

Ameaça nos bastidores

A festa ocorreu sob uma sombra política significativa. Na semana que antecedeu o evento, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou em primeira votação um projeto de lei que proíbe a realização do evento em vias públicas e a presença de crianças e adolescentes, mesmo que acompanhados dos pais .

Juristas consultados pela Agência Brasil classificaram a proposta como inconstitucional – uma decisão semelhante já foi tomada pelo STF em relação a uma lei do Amazonas . Apesar disso, o clima foi de desafio. “Eles querem nos colocar de volta no armário. Ninguém vai parar a Parada. A arma deles é o ódio, e a nossa é o amor”, discursou a transexual Léo Áquilla (PSB) durante o trajeto .

O peso do voto

Com outubro se aproximando, o tema central deste ano foi a conscientização eleitoral. O icônico boneco “Votinho”, uma urna eletrônica sorridente e colorida, abraçou a multidão para lembrar que as conquistas legais – como o reconhecimento da união estável e a criminalização da LGBTfobia – são frutos de pressão social e, agora, precisam ser defendidas no legislativo .

A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, presente ao evento, reforçou o momento crítico. “Enviamos recentemente ao Congresso Nacional a Política Nacional de Direitos LGBT, mas a disputa política define se avançamos ou recuamos”, destacou .

Para a drag queen Tiffany, uma das pioneiras do movimento, este é o momento mais delicado das últimas três décadas. “A Parada sempre foi sobre ‘mostrar meu rosto, eu também pago imposto’. Agora, é sobre garantir que esse rosto continue tendo direitos”, resumiu .

Ficha Técnica do Evento:

  • Atrações principais: Pabllo Vittar, Gloria Groove, Pepita, Urias, Melody e Jup do Bairro .
  • Percurso: Concentração no MASP (10h), descida pela Rua da Consolação seguindo até o centro .
  • Realização: APOLGBT-SP com apoio reduzido da Prefeitura de SP (R$ 5,5 milhões) 
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