A fúria de estudantes que ocupam as ruas da França em protesto

Estudantes de diversas regiões da França realizam protestos desde o fim de setembro contra a falta de financiamento para a educação, a ausência de professores e as condições precárias das escolas. As manifestações incluem bloqueios de unidades de ensino médio e, em algumas localidades, confrontos que deixaram estudantes, professores e policiais feridos.

Segundo as autoridades, milhares de pessoas foram presas durante os atos, incluindo indivíduos apontados como possíveis agitadores externos. Na terça-feira (6), centenas de milhares de pessoas foram às ruas em diferentes partes do país.

Entre as principais reclamações está a falta de professores substitutos. “Às vezes, nossos professores se ausentam por várias semanas, sem que sejam substituídos”, relatou à BBC a estudante Madalena, de Paris.

Os manifestantes também criticam a precariedade da infraestrutura escolar, as jornadas extensas e as restrições ao uso de celulares. Um estudante ouvido pela emissora pública France 2 afirmou que, ao chegar em casa por volta das 19h, sobra pouco tempo para descansar ou fazer as tarefas escolares.

Pressão para entrar na universidade

Outro motivo de insatisfação é o Parcoursup, plataforma utilizada para distribuir vagas no ensino superior francês. Embora cerca de 80% dos estudantes sejam aprovados no baccalauréat, exame realizado ao final do ensino médio, a aprovação não garante uma vaga no curso universitário desejado.

O sistema alimenta a ansiedade dos jovens, que questionam a transparência dos critérios de seleção e enfrentam uma disputa por vagas nos cursos mais concorridos.

Falta de recursos e futuro incerto

Apesar das queixas, dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que a França investe mais por estudante do ensino médio do que a média da União Europeia. A falta de professores também não seria mais grave do que em outros países, embora os salários dos profissionais franceses sejam relativamente baixos.

As jornadas escolares prolongadas, por sua vez, estão relacionadas à organização das atividades e aos intervalos para o almoço, características históricas do sistema educacional francês.

Para além das questões específicas da educação, a precariedade dos prédios escolares, a falta de recursos e a insegurança em relação ao futuro estão entre os fatores que alimentam a mobilização.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, classificou os protestos como um movimento “sem precedentes”, diante da quantidade de escolas e estudantes envolvidos e do nível de violência registrado.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou que as forças de segurança não receberam ordens para confrontar estudantes, mas para garantir o cumprimento da lei. Na França, bloquear escolas mediante ameaças ou uso da força é ilegal, e as operações policiais para dispersar os manifestantes têm provocado novos confrontos.

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