O ataque direto de Michelle Bolsonaro ao senador Flávio Bolsonaro, em dois vídeos que totalizam 27 minutos e foram divulgados na última quarta-feira (24/6), caiu como uma bomba no campo conservador e reacendeu o debate sobre a sucessão do espólio político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A ex-primeira-dama acusou o enteado de tê-la “apunhalado” durante uma crise familiar no ano passado, em torno das articulações para as eleições no Ceará. Enquanto Flávio defende uma aliança com Ciro Gomes (PSDB) — visto como mais competitivo contra o PT no Estado —, Michelle classifica a aproximação como uma traição, lembrando os ataques históricos de Ciro a Jair Bolsonaro. Ela apoia a pré-candidatura do bolsonarista Eduardo Girão (Novo).
“Ela entrou nessa crise como um ativo político real”, afirma Carolina Althaller, diretora executiva do Instituto Update. Para a especialista, o episódio não se resume a uma desavença familiar: “É uma disputa de poder entre dois projetos dentro do mesmo campo.”
Reação nas redes e desgaste calculado
Monitoramentos mostram que o episódio teve forte repercussão, com 580 mil mensagens em plataformas como Instagram, TikTok e X. Segundo o instituto Quaest, 42% das publicações defenderam Flávio e criticaram Michelle, contra 31% de apoio à ex-primeira-dama.
Já a AP Exata Inteligência aponta que Flávio melhorou seus índices de imagem: suas menções positivas subiram de 32% para 38,44%, e o indicador de confiança avançou de 11,63% para 13,9%. A análise sugere que a base bolsonarista reagiu de forma defensiva ao senador, enxergando-o como vítima da exposição pública do conflito.
Michelle, por outro lado, viu sua presença no debate presidencial saltar de 5% para 20,9% das menções, mas sua imagem praticamente estagnou: menções positivas recuaram de 46,5% para 46,11%, e a confiança caiu de 18,2% para 17,9%. Apesar disso, a AP Exata destaca que ela preservou apoio entre mulheres conservadoras e evangélicas.
A reação das lideranças bolsonaristas
Entre os políticos do campo, houve divisão. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) elogiou Michelle: “Coerente! Forte! Corajosa! Verdadeira!”. Já a deputada Bia Kicis (PL-DF), próxima da ex-primeira-dama, avaliou que o vídeo “caiu como uma bomba” e criticou a exposição pública: “Na política, não é bom dar munição para o adversário.”
O pastor Silas Malafaia apoiou Flávio, enquanto o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, antecipou sua volta ao Brasil para tentar costurar um acordo. Ele defendeu que Michelle seja convencida sobre a aliança com Ciro no Ceará, argumentando que é a única via para derrotar o PT no Estado.
Além da bolha: um movimento de médio prazo?
Para Carolina Althaller, as reações negativas imediatas não refletem necessariamente o impacto eleitoral futuro. Michelle, segundo ela, “vem construindo capital político próprio de forma metódica há pelo menos dois anos”, percorrendo estados, formando lideranças e articulando candidaturas pelo PL Mulher.
“O ponto mais relevante é que Michelle não está disputando a aprovação da base dura de Flávio, mas construindo um capital que transcende essa base, voltado para o eleitorado feminino indeciso, para mulheres evangélicas que se identificam com a experiência de ser desrespeitada dentro de estruturas dominadas por homens.”
Flávio, que aparece quase empatado com Lula nas pesquisas presidenciais, enfrenta agora o desafio de administrar a crise e reconstruir a relação com a madrasta — que é apontada como principal ativo para reduzir a desvantagem do bolsonarismo entre as mulheres.
Enquanto isso, a esquerda engrossou o apoio a Michelle nas redes, enxergando na briga uma oportunidade de enfraquecer a pré-candidatura de Flávio. A narrativa dominante entre críticos do senador é a de “traição ideológica” por buscar aliança com Ciro Gomes, histórico opositor da família Bolsonaro.







