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'Ele pegou o martelo para matar mesmo', diz vizinho que filmou feminicídio em Salvador

  • 21-08-2025 09:24

O feminicídio de Laina Santana Costa Guedes, morta a marretadas pelo marido na varanda de casa em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador, é mais um retrato brutal de uma realidade que insiste em se repetir no Brasil. Aos 35 anos, contadora, mãe de duas meninas, Laina se tornou mais um número em uma estatística cruel: a cada 6 horas, uma mulher é assassinada no país, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O caso, ocorrido na noite de terça-feira (19), ganhou contornos ainda mais dramáticos porque foi presenciado por vizinhos, filmado e interrompido apenas pela chegada de policiais que moram no condomínio. Ramon de Jesus Guedes, o marido e assassino, só não foi linchado pela população porque foi protegido pela própria polícia — uma ironia diante de todo o sofrimento que ele causou.

O silêncio que precede a tragédia

Vizinhos relataram que ouviram brigas na semana anterior ao crime. A família, no entanto, não tinha conhecimento de episódios anteriores de agressão. O que se desenha é o cenário mais comum em casos de feminicídio: o ciclo de violência silencioso, em que a vítima se isola, muitas vezes sob o controle psicológico de um agressor.
— “Acredito que por ele ser um marido tóxico, ela acabava ficando mais em casa”, disse um vizinho.

É o retrato da vida de milhares de mulheres que sofrem violência física, psicológica ou moral entre quatro paredes, sem denunciar — por medo, por vergonha, ou pela sensação de desamparo diante de um Estado que ainda falha em protegê-las.

Testemunhas impotentes diante da barbárie

O relato dos vizinhos mostra um misto de horror e impotência. A violência foi tamanha que, mesmo com dezenas de pessoas assistindo, ninguém conseguiu impedir o assassinato. A cena — a mulher ensanguentada, pedindo socorro na varanda, as filhas tentando defendê-la — revela o quanto o feminicídio não é apenas um crime íntimo, mas um espetáculo de crueldade que atinge toda a comunidade.

— “Ele pegou o martelo para matar mesmo”, disse Gabriel, vizinho que presenciou o ataque.

O peso para quem fica

Além da dor da família, duas meninas — de 5 e 12 anos — terão de conviver para sempre com as marcas desse trauma. Uma delas, inclusive, foi agredida durante a tentativa desesperada de salvar a mãe.

Enquanto isso, a sociedade precisa encarar de frente a pergunta incômoda: até quando meninas e mulheres terão de crescer à sombra da violência?

Feminicídio não é caso isolado

O caso de Laina não é exceção, é regra. Em 2023, mais de 1.400 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil — quatro por dia. A Bahia aparece entre os estados com maiores registros, mas os números se espalham pelo país inteiro.

Ainda assim, a resposta segue sendo pontual e insuficiente: prisão em flagrante após o crime consumado. Onde estava a rede de proteção antes? Onde estavam as políticas públicas de prevenção, os canais de denúncia efetivos, a presença do Estado?

A urgência da mudança

O feminicídio de Laina não é apenas uma tragédia individual, mas um sintoma coletivo de uma cultura que naturaliza a violência de gênero. Cada vizinho que ouviu brigas e nada fez, cada instituição que falhou em oferecer proteção preventiva, cada piada machista que normaliza a toxicidade masculina, todos fazem parte da engrenagem que empurra mulheres para a morte.

Laina não deveria ter sido morta. Nenhuma mulher deveria. E, no entanto, a cada dia, mais uma vida é interrompida da forma mais cruel possível.

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