O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem manifestado, em conversas reservadas com auxiliares, irritação com a atuação do ministro Dias Toffoli na relatoria do inquérito que investiga supostas fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. Segundo relatos, o chefe do Executivo acompanha de perto os desdobramentos do caso, avalia o impacto institucional sobre o Supremo Tribunal Federal e chegou a afirmar a interlocutores que o magistrado deveria renunciar ou se aposentar, diante do desgaste provocado pela condução do processo e por revelações envolvendo vínculos familiares e decisões sob sigilo.
Desde o fim de 2025, Lula passou a acompanhar com maior atenção o andamento do inquérito, especialmente após a decisão de Dias Toffoli de impor sigilo elevado a um pedido da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro para deslocar as investigações ao STF. A medida foi interpretada por aliados do presidente como um fator adicional de opacidade em um caso de grande repercussão pública.
Auxiliares relatam que Lula demonstrou desconforto com notícias que expuseram laços de familiares do ministro com fundos de investimento associados à estrutura financeira do banco investigado. O receio, segundo esses interlocutores, é de que a percepção pública seja a de abafamento das investigações, o que ampliaria o desgaste institucional da Corte.
Apesar dos comentários duros em conversas privadas, pessoas próximas ao presidente avaliam que é improvável que Lula peça formalmente o afastamento de Toffoli do STF ou a renúncia à relatoria. Ainda assim, o tom das declarações indica distanciamento político e ausência de disposição para defender o ministro das críticas que vêm sendo formuladas.
Defesa das investigações e discurso público contra fraudes
A interlocutores, Lula tem defendido a continuidade das apurações e sustentado que o governo precisa demonstrar combate a fraudes sem distinção de status. Em declaração pública na sexta-feira (23/01/2025), o presidente afirmou que “não é possível continuar vendo o pobre ser sacrificado enquanto há um cidadão do Banco Master que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões”, em referência às estimativas de prejuízos associados ao caso.
No entorno presidencial, também há a avaliação de que o inquérito pode atingir políticos da oposição, mas que seu avanço é inevitável, mesmo que respingue em aliados do governo. A leitura predominante é a de que uma interrupção ou enfraquecimento das investigações teria custo político elevado.
Conexões políticas e repercussões regionais
O caso Banco Master envolve uma rede de relações políticas complexas. Daniel Vorcaro mantém vínculos com integrantes do centrão e com aliados do governo em diferentes estados. Na Bahia, o empresário Augusto Lima, ex-sócio do banco, é apontado como próximo do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e do senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado.
Essas conexões ampliam a sensibilidade do caso e reforçam o cuidado do Planalto em evitar qualquer sinal de interferência política nas apurações, mantendo, ao menos no discurso, a defesa da autonomia das instituições.
Conversas reservadas e expectativa sobre a relatoria
Em dezembro de 2025, Lula convidou Toffoli para um almoço no Palácio do Planalto, com a presença do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O encontro, descrito pelo presidente como amistoso, teve como pano de fundo a expectativa de que todas as descobertas do governo fossem levadas “às últimas consequências”.
Segundo relatos, Toffoli afirmou que nada seria abafado e que o sigilo adotado era justificável. Na ocasião, Lula teria dito que a relatoria representava uma oportunidade para o ministro “reescrever sua biografia”, conforme informação divulgada pelo colunista Lauro Jardim e confirmada pela imprensa.
O diálogo, contudo, antecedeu novas revelações que colocaram em xeque a atuação do magistrado, incluindo a imposição de sigilo rigoroso, uma viagem em jatinho na companhia de advogado ligado ao caso e negócios que associam familiares do ministro a fundos relacionados ao Banco Master.
Pressões sobre o STF e resposta do ministro
Diante das críticas, Toffoli indicou a interlocutores que descarta se afastar da relatoria, por não identificar elementos que comprometam sua imparcialidade. O ministro sustenta que nem a viagem nem as relações societárias envolvendo familiares configurariam impedimento ou suspeição, ressaltando que, historicamente, o STF reconhece tais situações apenas por autodeclaração.
O magistrado também argumenta que o regime de sigilo atende a critérios legais e processuais. Ainda assim, o acúmulo de episódios tem alimentado questionamentos públicos e internos sobre a governança e a transparência do tribunal em casos de grande impacto político e econômico.
Relação pessoal e histórico de decepções
Responsável pela indicação de Toffoli ao STF, Lula acumula episódios de frustração com o ex-advogado do PT. Um dos mais sensíveis ocorreu quando o ministro impediu o presidente de comparecer ao velório do irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá, em 2019, durante o período em que Lula estava preso em Curitiba.
O pedido de desculpas foi feito apenas em dezembro de 2022, após a eleição presidencial. Embora o episódio tenha sido formalmente superado, ele permanece como marca pessoal na relação entre ambos e é citado por aliados como exemplo do distanciamento crescente.
Desgaste institucional e riscos para a credibilidade do STF
A irritação demonstrada por Lula em relação a Dias Toffoli revela tensão inédita entre o Palácio do Planalto e um ministro por ele próprio indicado. O caso Banco Master, pela dimensão dos valores envolvidos e pela teia de relações políticas e financeiras, tornou-se um teste de credibilidade para o Supremo Tribunal Federal.
Os desdobramentos indicam que o principal risco institucional não reside apenas no mérito das investigações, mas na percepção pública de falta de transparência. O uso extensivo de sigilo, somado a vínculos pessoais e familiares, alimenta narrativas de corporativismo e fragiliza a confiança social na Corte.
Do ponto de vista político, Lula busca equilibrar a defesa das investigações com a preservação da estabilidade institucional. A ausência de um posicionamento público mais contundente contra Toffoli, contudo, pode ser interpretada como cálculo pragmático, ainda que o desgaste reputacional do STF siga em curso.
*Com informações do Jornal Folha de S.Paulo.







