Um dos principais cabos eleitorais da campanha de reeleição do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), em 2024, é o sócio-administrador da empresa que opera a roda-gigante do Complexo Turístico da Ponta Negra. A contratação foi feita sem licitação e envolve uma série de indícios de irregularidades.
O empresário Jean Marcos Praia Rocha, responsável legal pela Wheel Manaus J.P. Diversões Ltda., foi flagrado em eventos da campanha fazendo panfletagem e coordenando a entrega de santinhos do prefeito e de seu tio, Hudson Praia, candidato a vereador. Imagens e relatos de colegas de campanha obtidos com exclusividade pela CENARIUM comprovam a atuação eleitoral de Jean, que também era professor de Zumba em um projeto social vinculado ao tio.
Conexão Política e Nomeação na Prefeitura
Hudson Praia, amigo do prefeito David Almeida e do vice Renato Júnior, foi o responsável por apresentar o sobrinho ao chefe do executivo municipal. O projeto de Zumba de Hudson, onde Jean atuava como professor, foi uma ferramenta para angariar votos para Almeida. Após as eleições, Hudson foi nomeado assessor técnico do Fundo Municipal de Cultura (FMC), com salário de R$ 4,8 mil.
Colegas de campanha relataram surpresa com o benefício concedido a Jean Praia. “Todos que trabalharam com ele na campanha de David Almeida ficaram surpresos como ele foi beneficiado com a contratação da empresa dele sem licitação. Depois, percebemos que poderia ser pela amizade do prefeito com o tio Hudson Praia”, disse uma ex-funcionária.
Indícios de Irregularidade na Contratação
A empresa Wheel Manaus foi registrada em 18 de novembro de 2025, apenas dois dias antes da inauguração da roda-gigante. Inicialmente, a prefeitura havia informado que a operação ficaria a cargo da Nene Park (H. M. Diversões Ltda.).


A reportagem consultou o Portal da Transparência e os Diários Oficiais e não encontrou qualquer contrato, termo de concessão ou documento que descreva a cessão do equipamento público para a empresa de Jean Praia. A ausência de publicação impede a verificação do cumprimento de leis que regem contratos públicos, como a Lei nº 14.133/2021, que exige procedimento formal como licitação ou justificativa de dispensa.

A Prefeitura de Manaus afirmou, em nota, que a operação é amparada por um “Termo de Cessão de Uso Oneroso” com a H. M. Diversões Ltda. (Nenê Park), mas não apresentou o documento. O endereço cadastral da Wheel Manaus, por sua vez, é o mesmo local onde funciona o parque Nenê Park, indicando uma possível ligação não esclarecida entre as empresas.
Problemas Operacionais e Ação Judicial
A roda-gigante tem sido alvo de críticas desde sua inauguração. Dois dias após a abertura, o equipamento teve uma pane relacionada a uma ligação de energia elétrica clandestina, denunciada por um vereador. O prefeito negou a ilegalidade, mas não há documentos públicos sobre o custeio da energia pela prefeitura.
O preço do ingresso – R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia) – também gerou indignação nas redes sociais, sendo considerado alto para o poder aquisitivo local.


Diante das controvérsias, o vereador Coronel Rosses (PL) ingressou com uma ação popular pedindo a paralisação imediata da atração. A ação argumenta que a instalação feriu princípios constitucionais da administração pública, como a impessoalidade e a publicidade, e questiona a capacidade técnica de uma empresa recém-criada para operar um equipamento de grande porte.
Tanto Jean Praia quanto seu tio, Hudson Praia, não responderam aos questionamentos da reportagem. A Prefeitura de Manaus também se omitiu sobre a falta de documentação pública do contrato.







