Em evento que marcou o lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Amazonas em 2026, na manhã desta segunda-feira (23), o prefeito David Almeida utilizou o palanque para rebater com duras críticas a Operação Erga Omnes, deflagrada na última sexta-feira (20) pela Polícia Civil. A ação resultou na prisão de Anabela Cardoso, ex-chefe de gabinete do prefeito e atual investigadora da Polícia Civil, sob suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
“Essa operação chamada Erga Omnes é tão autêntica quanto uma nota de R$ 300”, alfinetou David, em tom irônico. “A operação não tem nada a ver com o tráfico de drogas. A operação é para tentar sujar o nome do David. Eu sou trabalhador, sou honesto, sou decente”, completou.
O prefeito apontou diretamente o governador Wilson Lima como responsável pela ação policial. “A prisão dela [Anabela] é o Wilson Lima. Ele sabia da operação, sabia de tudo”, afirmou. “O Governo do Estado do Amazonas está instrumentalizando o estado. Inclusive, isso é crime”, acrescentou, prometendo acionar a Polícia Federal para investigar o caso.
Investigações apontam movimentação milionária
Na última sexta, a Polícia Civil prendeu oito pessoas suspeitas de integrarem esquema de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção ativa. Segundo as investigações, o grupo teria movimentado R$ 78 milhões nos últimos quatro anos. Anabela Cardoso, que também integra a Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus, é investigada por suspeita de ter transferido cerca de R$ 1,5 milhão para uma facção criminosa por meio de empresas de fachada.
David, no entanto, contestou os dados apresentados. Segundo ele, os valores transferidos por Anabela a uma empresa somam apenas R$ 36 mil em cinco anos. O restante, disse, seria proveniente de pensões e salários que totalizam renda mensal de aproximadamente R$ 70 mil. “O que está sendo colocado aí é tudo mentira, que nós vamos dissecar uma por uma”, garantiu.
O prefeito afirmou que irá custear a defesa jurídica da ex-assessora. “Se ela precisar dessa ajuda, nós vamos ajudar, sim”, declarou, classificando Anabela como “mulher decente, leal e honrada” e lamentando o que chamou de “execração pública” nas redes sociais. Ele garantiu que a investigadora permanecerá em sua equipe: “Ela é da minha confiança, ela é inocente e vai continuar trabalhando comigo”.
Questionamentos sobre a operação
O prefeito colocou em dúvida a legalidade da prisão de Anabela. “A decisão interlocutória que confirmou a prisão dela não tem nem um argumento para mantê-la presa. Qual o motivo de a Anabela estar presa? Comprar passagem em uma agência de viagem. Não tem nem artigo, nem qualificação”, criticou.
David também questionou a efetividade da operação no combate ao tráfico. “Qual o objetivo da operação? O tráfico de drogas. Que operação é essa que não prendeu um traficante? Não apresentou um carro apreendido, não apresentou um quilo de drogas, não mostrou a apreensão de dinheiro, como todas as outras”, indagou.
Informação prévia e suposto direcionamento
O prefeito revelou que teve conhecimento da investigação ainda em outubro de 2024, durante encontro na residência do senador Omar Aziz (PSD). “Vocês sabem quando eu soube dessa operação? No dia 24 de outubro do ano passado, eu e o Renato. Eu soube dessa operação na casa do senador Omar Aziz. Ele me mostrou. E o governador Wilson Lima também sabia”, afirmou.
David questionou ainda o suposto direcionamento das investigações. Segundo ele, das 20 perguntas feitas ao proprietário de uma das empresas investigadas, 19 teriam sido sobre sua pessoa. “Eles não estão interessados em investigar tráfico de droga nenhum. Eles estão tentando é me sujar”, acusou.
O prefeito revelou que a agência de viagens mencionada na investigação teria sido indicada pelo vice-governador Tadeu de Souza. “Que culpa eu tenho de comprar passagem em uma agência de viagem que me foi indicada pelo vice-governador Tadeu de Souza?”, questionou.
Resposta do Governo do Estado
Em nota oficial, o Governo do Amazonas repudiou as declarações de David Almeida, classificando-as como “irresponsáveis” e sem comprovação. O texto defende a autonomia da Polícia Civil e afirma que as investigações seguem “com base em provas, procedimentos legais e responsabilidade técnica”.
“É inaceitável que, diante de investigações sérias conduzidas pela Polícia Civil do Amazonas, que atua com autonomia e respaldo legal, o prefeito tente criar uma narrativa de perseguição política para desviar o foco dos fatos”, diz a nota.
O governo estadual reforçou que a Polícia Civil “não age por motivação política” e que eventuais prisões ocorrem “com autorização do Poder Judiciário”, classificando como “leviana” a tentativa de desacreditar o trabalho dos servidores da segurança pública.







