Se você acessou a HBO e assistiu à minissérie Angela Diniz, provavelmente chegou à mesma conclusão que eu: os anos 1970 parecem estar mais presentes do que nunca. A produção, dividida em seis episódios, revisita um dos crimes mais cruéis e emblemáticos da história do Brasil. Mas o que mais impacta não é apenas a reconstrução do assassinato de Ângela Diniz. É a constatação de que, mais de cinco décadas depois, continuamos convivendo com uma cultura que insiste em relativizar a violência contra a mulher.
A história é conhecida. Ângela foi assassinada por Doca Street em 1976, na praia de Búzios. O crime ganhou repercussão nacional, mas o que veio depois talvez seja ainda mais revoltante. Em vez de discutir a brutalidade do assassinato, parte da sociedade preferiu colocar a vítima no banco dos réus. Sua vida amorosa, seu comportamento e sua personalidade foram usados como argumentos para justificar o injustificável.
O discurso da chamada “defesa da honra”, aceito por muitos naquela época, escancarava um país que acreditava que um homem poderia ser absolvido por matar uma mulher que ousasse contrariá-lo. Hoje, essa tese não existe mais no ordenamento jurídico brasileiro. Ainda assim, será que ela desapareceu da mentalidade de todos?
Basta abrir as redes sociais após qualquer caso de feminicídio para encontrar perguntas como: “Mas o que ela fez?”, “Por que não terminou antes?” ou “Ela sabia com quem estava se envolvendo”. São frases diferentes, mas que carregam a mesma essência de décadas atrás: responsabilizar a vítima e aliviar o peso do agressor.
Os números mostram que o problema está longe de ser apenas uma lembrança do passado. Mulheres continuam sendo perseguidas, agredidas e mortas, muitas vezes por companheiros ou ex-companheiros que não aceitam o fim de uma relação. Em muitos casos, os sinais estavam ali, ignorados por familiares, amigos e, por vezes, até pelas próprias instituições.
A minissérie não fala apenas sobre Ângela Diniz. Ela fala sobre todas as mulheres que tiveram suas histórias reduzidas a julgamentos morais. Fala sobre aquelas que sobreviveram à violência e também sobre as que não tiveram essa oportunidade.
Talvez seja justamente por isso que assistir à produção provoque tanto desconforto. Porque ela nos obriga a reconhecer que evoluímos nas leis, mas ainda caminhamos lentamente na forma como enxergamos as mulheres, seus direitos e sua liberdade.
Os anos 1970 ficaram para trás. O machismo que matou Ângela, infelizmente, ainda tenta sobreviver em pleno século XXI. E, enquanto houver quem justifique a violência ou questione mais a vítima do que o agressor, essa história continuará sendo atual.
Que a memória de Ângela Diniz não sirva apenas para relembrar um crime. Que ela nos lembre, todos os dias, da urgência de construir uma sociedade em que nenhuma mulher precise pagar com a própria vida pelo simples direito de ser livre
Opinião: Por Amanda Amorim







