Delação de Vorcaro pode ser prejudicada por nova fase da operação contra Ciro Nogueira

A mais recente etapa da Operação Compliance Zero, que mirou o senador Ciro Nogueira (PP-PI), demonstra que as investigações sobre o escândalo do Banco Master continuarão avançando, independentemente de um eventual acordo de delação premiada proposto pelo banqueiro Daniel Vorcaro. A avaliação é de criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Segundo especialistas, a ação da Polícia Federal, autorizada pelo ministro do STF André Mendonça, também indica que propostas de colaboração consideradas tímidas ou sem informações novas e relevantes não serão aceitas.

A defesa de Vorcaro entregou sua proposta inicial de delação na quarta-feira (6/5), um dia antes da nova fase da operação. O documento está sendo analisado pela PF, Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelo próprio Mendonça, responsável pelas investigações no Supremo.

O criminalista André Perecmanis, professor da PUC-RJ, afirma que PF e o ministro deram um “recado claro” de que a investigação seguirá seu curso. “Para a delação ser aceita, precisa ter ineditismo. Se a PF já sabe, não adianta trazer. É preciso algo relevante, que desarticule a quadrilha, identifique criminosos e recupere valores”, explica.

Conforme a colunista Mônica Bergamo (Folha de S.Paulo), a proposta inicial teria desagradado Mendonça por não detalhar autoridades envolvidas. O nome do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), por exemplo, não foi citado, apesar de conversas apreendidas com Vorcaro indicarem encontro na residência oficial do Senado em abril de 2025.

A PF também investiga um investimento de R$ 400 milhões do fundo de previdência do Amapá (Amprev), então comandado por um aliado de Alcolumbre, em títulos do Master. Alcolumbre nega irregularidades.

Outra colunista, Malu Gaspar (O Globo), informou que a proposta de delação também não mencionaria supostos favorecimentos do Master ao senador Ciro Nogueira, revelados na operação de quinta-feira. A PF aponta que Nogueira teria recebido pagamentos recorrentes e vantagens em troca de favores, além de ter apresentado ao Senado uma emenda elaborada por assessores do banqueiro.

A defesa de Ciro Nogueira repudiou “qualquer ilação de ilicitude” e afirmou que o senador está à disposição para esclarecimentos.

Na noite de quinta, o gabinete de Mendonça negou ter tido acesso ao material da delação e reforçou que colaboração premiada é um direito do investigado, mas que para produzir efeitos deve ser “séria e efetiva”. A nota acrescenta que as investigações seguem independentemente da proposta.

A criminalista Marina Coelho Araújo, professora do Insper, avalia que a operação é um recado a Vorcaro. “O ministro não vai aceitar uma coisinha mirim. Ele quer tudo: negociações com o BRB, com o Legislativo, o modus operandi do banqueiro.”

Um ponto delicado envolve possíveis citações a ministros do STF. Alexandre de Moraes enfrenta desgaste após a PF apontar troca de mensagens com Vorcaro no dia da prisão do banqueiro — o que o ministro nega. Dias Toffoli deixou a relatoria do caso após sua família ter feito negócios com fundo ligado ao Master.

Caso a delação inclua ministros do STF, especialistas afirmam que o acordo precisará ser homologado pelo plenário da Corte.

Além de Vorcaro, outros investigados também negociam delação, como Fabiano Zettel (cunhado do banqueiro) e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa.

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