Recado do governo Trump para a Europa: ‘Façam o que é do interesse de vocês’

Bratislava não costuma ser uma capital onde os Estados Unidos escolhem fazer grandes anúncios. Mas foi exatamente ali, ao lado do primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, que o secretário de Estado Marco Rubio deixou uma das mensagens mais claras – e mais reveladoras – da política externa americana sob Donald Trump.

O ponto central não foi a Ucrânia. Não foi a NATO. Foi algo mais básico, e justamente por isso mais transformador: a visão de Washington sobre como alianças devem funcionar.

“Esperamos que todo país no mundo aja no seu interesse nacional. É isso que países devem fazer”, disse Rubio, em uma frase que resume uma mudança de tom. Em seguida, foi ainda mais explícito: “Não queremos que a Europa seja dependente. Não estamos pedindo que a Europa seja um vassalo dos Estados Unidos. Queremos ser parceiros.”

Há duas leituras possíveis para essa fala. A primeira é diplomática: Rubio tenta reduzir o desgaste crescente entre EUA e Europa, principalmente após meses de declarações americanas sobre aumento de gastos militares europeus e sobre redistribuição de responsabilidades dentro da Aliança Atlântica.

A segunda leitura é mais dura e provavelmente mais correta. O governo Trump quer substituir a ideia de “comunidade ocidental” por um modelo mais transacional, onde alianças funcionam quando interesses se cruzam e onde divergências são tratadas como parte normal do jogo.

Rubio não escondeu isso. Disse que, quando os interesses se alinham, a cooperação é “extraordinária”. Quando não se alinham, é o momento de “acomodar” e “encontrar um caminho”.

O detalhe que torna o episódio relevante é o palco escolhido. A Eslováquia, país pequeno em tamanho, é grande em simbolismo: faz fronteira com a Ucrânia, está no coração do corredor energético da Europa Central e vive, internamente, uma tensão política permanente entre o alinhamento a Bruxelas e um discurso mais soberanista.

Ao escolher Bratislava, Washington também sinaliza que pretende operar na Europa por múltiplas entradas, e não apenas por Paris, Berlim e Bruxelas.

Rubio deixou isso praticamente declarado ao dizer que os EUA vão tornar “não apenas a Eslováquia, mas a Europa Central” um componente-chave do engajamento americano no continente.

O efeito disso, para a União Europeia, é óbvio: cresce o risco de uma Europa em camadas, com países buscando interlocução direta com Washington para ganhar peso interno — e para negociar com Bruxelas a partir de uma posição mais forte.

Para o público brasileiro, esse movimento costuma parecer distante, mas não é. Uma Europa mais fragmentada e uma relação transatlântica mais fria tendem a produzir instabilidade, e instabilidade, em geopolítica, costuma se traduzir em preços: energia, frete, seguros, dólar.

O que Rubio fez em Bratislava foi dar uma moldura ideológica a algo que já vinha acontecendo. O recado, em resumo, foi: não queremos lealdade automática. Queremos países defendendo seus interesses – e negociando com os nossos.

Informações: Jovem Pan

Compartilhe :

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *